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@hvitorino
Created April 21, 2026 12:33
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Filosofias Africanas

Filosofias Africanas — Resumo Reflexivo

Luiz Antônio Simas é um dos intelectuais brasileiros mais comprometidos com o que ele próprio chama de "saberes do terreiro" — um conjunto de filosofias, cosmologias e práticas que chegaram ao Brasil no corpo e na memória dos povos escravizados, e que resistiram à brutalidade colonial com uma vitalidade desconcertante. Filosofias Africanas não é um livro de folclore nem de antropologia distante: é um convite à descolonização do pensamento.


A existência como relação

O ponto de partida do livro é radical: a existência não se realiza por si mesma. Diferente da tradição ocidental que coloca o indivíduo no centro — o famoso cogito ergo sum de Descartes —, as filosofias africanas propõem que o ser humano só se constitui plenamente em relação. O Ubuntu, filosofia de origem banto, sintetiza isso na frase "Sou porque somos". A comunidade não é o pano de fundo da vida; ela é a condição da vida.

Daí decorre um dos conceitos centrais do livro: a força vital (axé, no vocabulário iorubá) não é algo que se possui individualmente. Ela circula, se recupera e se amplifica pelo contato com a comunidade, com os ancestrais e com o sagrado. A sacralização dos corpos pela dança — o giro do candomblé, a roda da capoeira — não é ornamento cultural. É filosofia em movimento. O corpo que dança não está se divertindo; está se refazendo.


Os ancestrais como filosofia viva

O culto aos ancestrais é talvez o eixo mais poderoso do livro. Nas tradições africanas, os mortos não partem — eles migram para uma outra camada da existência de onde continuam a agir sobre os vivos. Ser lembrado é permanecer vivo. O esquecimento, portanto, é a morte verdadeira. Não a biológica, mas a ontológica.

Isso transforma a memória em ato político. Quando uma cultura é destruída, quando seus símbolos são profanados — e Simas é preciso ao mostrar como as guerras e a colonização sempre passaram pela supressão cultural do derrotado —, o que se mata não é apenas o passado. Mata-se a possibilidade de futuro.

Daí o ensinamento que ressoa como um verso de cordel: "O novo que não vem do velho é velho; o velho que não se renova será aniquilado." Renovação sem raiz é dissolução.


Sabedoria versus conhecimento

Simas faz uma distinção que merece atenção especial: sabedoria não é o mesmo que conhecimento. O conhecimento pode ser transmitido por livros, aulas, algoritmos. A sabedoria exige experiência vivida, tempo, erro, e — fundamentalmente — a relação com outros. O velho do terreiro, o griô africano, o contador de histórias não são repositórios de informação: são portadores de sabedoria encarnada.

Isso tem uma consequência filosófica importante: a experiência é indispensável e não pode ser substituída. Numa época em que se acredita que tudo pode ser aprendido rapidamente e individualmente, as filosofias africanas respondem com uma paciência que parece subversiva.


As raízes iorubá e o diálogo com o Egito

O livro dedica espaço considerável à cultura e língua iorubá, que chegaram ao Brasil em grande volume e deixaram marcas profundas na religiosidade, na culinária, na música e na língua cotidiana. Olodumare — o princípio supremo da cosmologia iorubá, a fonte de todo axé — não é um Deus pessoal no sentido abraâmico. É algo mais próximo de uma energia primordial que se manifesta através dos orixás.

Simas também toca num ponto historiograficamente importante: a relação entre as filosofias egípcias e as gregas. A Grécia clássica, frequentemente apresentada como o berço do pensamento ocidental, bebeu abundantemente das fontes africanas — especialmente egípcias. Tales, Pitágoras, Platão estudaram no Egito. A ideia de que a filosofia "começa" na Grécia é, ela mesma, um produto ideológico da colonialidade.


Ciclo, barro e forças antagônicas

A cosmologia africana, especialmente na tradição de Nanã (orixá do barro primordial), entende a morte não como fim mas como premissa da vida. O barro de que somos feitos é o mesmo barro para o qual retornamos — e do qual novas formas surgem. O ciclo não é pessimismo; é uma forma de recusar o desespero diante da finitude.

Os humanos possuem cinco elementos nessa cosmovisão — corpo, nome, sombra, duplo espiritual e o princípio vital que retorna à fonte —, o que aponta para uma compreensão do ser humano muito mais porosa e relacional do que o dualismo alma/corpo da tradição ocidental.

E talvez o ensinamento mais contemporâneo do livro seja justamente o último dos seus temas: as forças antagônicas são necessárias. Exu e Ogun, Iemanjá e Iansã — os orixás não existem em harmonia pastoral. Existem em tensão criativa. O conflito não é desvio da ordem; é a ordem. Uma filosofia que aceita o antagonismo como constitutivo da vida é uma filosofia muito mais honesta sobre o que o mundo realmente é.


Para concluir

Filosofias Africanas é um livro que incomoda da melhor forma. Ele não pede que o leitor abandone sua tradição — pede que ele perceba que sua tradição é apenas uma entre muitas, e que talvez algumas perguntas fundamentais sobre existência, comunidade, memória e morte já tenham sido respondidas com mais beleza e profundidade em terreiros, aldeias e rios africanos do que em muito congresso de filosofia europeia.

Como diria o próprio Simas em outros escritos: encantamento também é método.

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